Estamos vendo o termo curadoria aparecer no meio digital como promessa ou recurso para resolver um problema antigo: buscar e filtrar conteúdos relevantes e verídicos. Esse foco conteudista ofuscou nosso olhar para um desafio muito maior: o design e a funcionalidade de plataformas que abrigam esses conteúdos são insuficientes para gestão de conhecimento. E agora?

por Carolina Messias e Mariana Jatahy

Curadoria para quê? 

A cada minuto, 5,7 milhões de pesquisas são feitas no Google, 694 mil horas de vídeos são carregadas no YouTube, 65 mil fotos são compartilhados no Instagram e 208 mil pessoas estão conectadas em reuniões no Zoom… a-cada-minuto. Essa é a quantidade de dados que geramos na internet, segundo pesquisa da Domo em 2021. Somos 5,2 bilhões de pessoas conectadas, mais do que o dobro de uma década atrás (em 2011, éramos 2,1 bilhões). Para as grandes empresas de tecnologia, um prato cheio para seguirem invictas no mercado, lucrando e impactando cada vez mais nossos hábitos de consumo e comportamento; para nós, uma incógnita complexa: por um lado, nunca tivemos tanto acesso à informação, por outro, como encontrar e escolher conteúdos que atendam às nossas necessidades específicas? Como criar conexões genuínas para além da transmissão de dados? Como realizar experiências autênticas, criativas e originais hoje em dia?

É nesse contexto que a curadoria ganha cada vez mais espaço no ambiente digital como promessa de ordenar, qualificar e destacar o que é relevante na avalanche de conteúdos que enfrentamos diariamente. Nesse ambiente altamente poluído de informação, quem trabalha com conhecimento (knowledge workers), e depende disso para se sustentar, já percebeu que encontrar boas fontes e selecionar materiais relevantes é só uma parte do trabalho. Hoje, insuficiente. Os criativos e criadores de conteúdo, recentemente agrupados na chamada Creator Economy (economia do criador), cresceram exponencialmente nos últimos anos, como mostram os números da pesquisa Domo. A pandemia acelerou o processo, levando mais pessoas a trabalhar no ambiente digital e a se reinventar, empurrando mais pessoas para o setor do conhecimento. O que era um sonho de “viver do que se ama” tem levantado questionamentos, especialmente em criativos cansados de tentar serem porta-vozes da próxima tendência – todo mundo parece em busca de um furo de reportagem, até para memes – e de produzir e publicar numa quantidade e velocidade desconectada com o tempo da criação. Não se trata só de encontrar ou criar conteúdo, mas de captar, elaborar e remixar informações com as próprias reflexões. Oferecer algo autêntico que gera conexão com outras pessoas exige uma qualidade de tempo e profundidade que está fora das premissas de como as plataformas que entregam esses conteúdos funcionam.

No cenário informacional digital atual, as pessoas não dão mais conta da geração e filtragem de tantos dados. A prática de curadoria hoje precisa ser conectada à gestão de conhecimento, em nível pessoal e organizacional. Uma pessoa que consegue curar boas fontes e fazer a gestão do seu repertório e entendimento organiza melhor seus pensamentos, traz ideias mais claras para a mesa e o nível de qualidade da entrega sobe. Só que ainda não temos musculatura para lidar com tanta informação. Isso é muito novo para nossa geração que está no mercado de trabalho hoje. A prática de curadoria associada à gestão de conhecimento pessoal ajuda a criar essa musculatura.

Curadoria é tendência, mas calma…

Vamos por partes. A curadoria não é uma prática nova. A pesquisadora Beatriz Morgado Queiroz (2018) mapeou essa prática neste artigo, mostrando as múltiplas atividades que se apropriaram do termo ao longo da história, desde o curador-conservador da Roma Antiga até o curador-autor, que ganhou espaço na sociedade do espetáculo a partir da década de 1980, e discute por que o termo curadoria está à venda hoje. 

De cuidadora de patrimônio privado até mediadora entre criações e seus públicos, a atividade curatorial já esteve presente em diversas atividades ligadas a leis, burocracia, arte até passar a ocupar também os campos da informação, pesquisa, produção e difusão de conhecimento científico e artístico. A função do curador de mediar pontos de vista, analisando um conjunto de informações e traçar uma narrativa a serviço de um campo de conhecimento e do público é herdeira do que se convencionou nas dinâmicas curatoriais dos museus (no artigo, a pesquisadora destaca inovações do Museu do Louvre nesse sentido, desde sua inauguração em 1793). 

A proliferação do termo desde os anos 80 é apontado por ela como um sintoma, adjetivo que a curadora e crítica de arte Paula Alzugaray (2013) também já havia usado para se referir à curadoria:

“Trata-se de uma profissão sintomática de uma condição contemporânea e, portanto, se constitui de sobreposições. Na prática curatorial somam-se as funções de educador, artista, crítico, jornalista, diretor, produtor etc. Querer que essas atividades funcionem de forma autônoma, dissociadas, é voltar ao universo das especificidades, o que não é próprio de nosso tempo. A curadoria é, portanto, uma profissão-sintoma.” 

Mas sintoma de quê? Você já pode ter algumas pistas pelo que apontamos antes… Entretanto, queremos propor um mergulho na complexidade dos sintomas mais recentes, considerando o digital como novo campo na disputa do termo curadoria e suas implicações.

Curadoria como sintoma

Então, se entendemos a curadoria como sintoma, para que doenças ela aponta? No campo da comunicação midiática, temos alguns diagnósticos listados nos últimos 20 anos: hiperinformação, infoxicação (problema de excesso) e infodemia (ou desinfodemia, pandemia de desinformação decorrente da covid-19), desinformação (problema de acesso), vigilância (FOMO, medo de ficar de fora, e FOBO, medo de perder uma opção melhor). 

É neste ecossistema informacional poluído, que a curadoria emerge como sintoma protetor, como filtro de fake news e conteúdos ruins. O artigo O fake é fast? Velocidade, desinformação, qualidade do jornalismo e media literacy (de Michelle Prazeres e Rodrigo Ratier, 2020) traz uma reflexão crítica e aprofundada sobre o efeito da aceleração social do tempo na comunicação. Hoje, quando se fala em curadoria é quase como um antídoto para combater aqueles males todos e contra conteúdos ruins. E claro que conteúdos falsos e de má qualidade existem e os curadores também estão a serviço de filtrá-los em prol de sua qualidade e relevância.

Só que o grande desafio hoje é: a poluição informacional abriga hoje conteúdos ruins e também conteúdos muito bons. Com o crescimento da economia criativa e do criador (creator economy) no início dos anos 2000 em paralelo com a evolução das redes sociais como plataformas de produção de conteúdo, mais pessoas abraçaram o empreendedorismo criativo, transformando hobbies e paixões em trabalho. A ponto de surgir termos correlacionados a esse modelo econômico do quarto setor, como passion economy em 2019, e a Gig Economy, que fez emergir modelos de trabalho como Uber, AirBnb, entre outros. A tabela abaixo compara esses dois últimos:

Gig Economy

(“economia compartilhada”)

Passion Economy (Economia da Paixão) 
Modelo de monetização Receita única: pagamento por viagem, por sessão etc. Receita contínua com base na construção de uma audiência
Serviço oferecido Serviços limitados e comoditizados Ampla variedade de produtos e serviços criativos
Pilha de software Plataformas sob demanda que comoditizam fornecedores Marketplaces que enfatizam a individualidade dos fornecedores 

Ferramentas de softwares como serviço (SaaS) que permitem que fornecedores ajustem seus próprios negócios

Relação entre consumidor e fornecedor Capacidade limitada de engajamento do consumidor Plataformas incentivam interações diretas e fidelização entre o fornecedor de serviços e o consumidor
Alavancas para crescimento do negócio Fazer mais: mais tempo gasto, quilômetros percorridos, trabalho concluídos etc. Expandir o público e oferecer um serviço ou produto diferenciado.

Fonte: tradução livre |Tabela de Li Jin (2019) |O termo Gig Economy aparece por volta de 2016, aproximadamente; já Passion Economy é cunhado pela autora em 2019. Ambos estão conectados ao termo economia criativa (creative economy), que data de 2001, com o lançamento do livro do John Howkins que analisa sistemas econômicos em que o valor está nas ideias e em habilidades ligadas à imaginação e criatividade. Este artigo do John Newbigin resume a história das indústrias criativas até a economia criativa e alguns de seus impactos culturais e sociais (no contexto britânico).

Ao monetizar a individualidade das pessoas, ou seja, com mais pessoas exclusivamente dedicadas à criação (produção, edição e todo trabalho conectado a conteúdo) e forçando outros profissionais autônomos também a gerarem conteúdos próprios para comunicar seu valor, a régua dos conteúdos produzidos começou a subir. A comercialização do termo “criador” pelo YouTube a partir de 2011 também contribuiu para essa atração do público criativo, implicando o esforço do sujeito que cria, dando um ar artesanal à história, mesmo que a definição de “criador de conteúdo” ainda esteja em debate.

A promessa da creator economy é ser uma forma inovadora de ganhar a vida fazendo o que ama. Sedutor, não? Tanto que hoje já são contabilizados cerca de 50 milhões de criadores digitais e esse mercado já movimenta bilhões de dólares, segundo este relatório aqui que investigou seu boom em 2021. O que o relatório denomina “automonetização”  é, na realidade, mediado por uma série de plataformas (que recebem comissão ou assinatura tanto dos criativos quanto do público): de criação de conteúdo, de inscrição de newsletter, blockchain, cursos, gerenciamento de comunidades, financeiro, analytics, marketing… muitas vezes desconectadas umas das outras e agregando todo o conhecimento gerado de forma difusa.

Com a régua de exigência e dinheiro subindo, demandando cada vez mais conteúdos excelentes, com pontos de vista originais, em plataformas interessantes e amigáveis, novos sintomas aparecem, como o impacto na subjetividade: curadoria como status, expressa em formas sutis de poder, como “quem sabe/vê primeiro é melhor” ou “quem consome com mais consciência é melhor”, e curadoria como estratégia, o atual momento da curadoria dentro da creator economy.

Curadoria como estratégia

Já deu para notar que a promessa da creator economy é mais sedutora do que real. A crise desse modelo de negócio que deposita no indivíduo toda a responsabilidade por se sustentar com seu trabalho criativo só aumenta. Por outro lado, temos à disposição um repositório enorme de conteúdos e criações excelentes. Como lidar com essa abundância de conteúdo atual? Como organizar esse repertório fértil se cada plataforma nova que surge se dedica a uma parte da gestão desse conhecimento?

Por isso, acreditamos que o desafio da curadoria não é mais (só) conteúdo, e sim a estratégia da mediação entre quem cria e como gere esse conteúdo e transforma em conhecimento + design/funcionalidade das plataformas que alocam esses conteúdos + quem precisa desse conhecimento. E ainda somamos algumas perguntas:

  • Que competências precisamos desenvolver para construir sistemas para fazer uso desses conteúdos?
  • Que competências precisamos desenvolver para curar e gerir esse conhecimento difuso em ambiente híbrido: digital e físico?
  • Como as plataformas precisam passar a incorporar no design esse modo de pensar uso de conteúdos?

Atualmente, nenhuma plataforma ainda oferece gestão completa de conhecimento. Por enquanto, temos algumas propostas de métodos de organização, como o Second Brain, que ensina a criar um espaço digital para organizar conteúdos e liberar espaço de nosso cérebro, porém lançando mão de diversas ferramentas, como Evernote, Drive, Notion; e algumas plataformas promissoras para integração e gestão de conhecimento, como Notion (o August Bradley propõe criar um sistema operacional da vida toda nesse espaço), Obsidian, Roam, Perlego, que oferece biblioteca online integrada com a missão de tornar a educação acessível a todos, e RemNote, que promete ser uma ferramenta completa para pensar e aprender.  

Detalhe: todas essas ferramentas novas são de organização e gestão do conhecimento. Poderíamos até entrar no tema das ferramentas de busca e pesquisa, porém, entendemos que a curadoria como estratégia envolve menos a ferramenta de busca e mais “como” realizar a pesquisa. Pesquisar e comunicar o que ainda não foi dito para uma determinada comunidade tem mais a ver com habilidades de investigação, pensamento crítico e organização do conhecimento. É muito difícil que algo realmente inovador esteja em textos criador por inteligência artificial (sim, já existem várias ferramentas que produzem textos a partir de pesquisas no Google, para agilizar a produção e alcançar as primeiras páginas de pesquisa que fazemos no browser) ou em textos que sintetizam as 7 melhores práticas para fazer tal coisa. Porque a inovação não está em uma lista consolidada, ela é intangível, difusa e, para ser expressa, necessita de alguém que se dedique a investigar não só em sites de busca, mas em diversos repositórios, comunidades, fóruns, depois a organizar e refletir sobre esse conteúdo acumulado e ter o esforço de traçar uma narrativa que conte a articulação entre os pontos investigados, sua visão de mundo, o zeitgeist… 

O campo da curadoria hoje está conectado à estratégia de gestão do conhecimento, design e interface de plataformas de conteúdo, aprendizagem, métodos e mecanismos de pesquisa. Não se trata mais de conteúdo, fast information, ou de quem compartilha um “furo” de reportagem, mas de pessoas que se conectam, aprendem e fazem algo com todo esse conhecimento disponível. A curadoria está na investigação, no questionamento, na relação com as pessoas que são guardiãs de conhecimentos que não podem ser encontrados no espaço virtual, e nas novas possibilidades de design que ainda não estão disponíveis.

Estamos criando um espaço para pensar e fazer curadoria hoje, em grupo. Queremos convidar pessoas interessadas em discutir práticas de curadoria e gestão de conhecimento pessoal, bem como fortalecer este campo no Brasil, trazendo o que encontramos de mais interessante nessa área e conectando pontos com nossas referências e modos de criar conhecimento. Se esse tema te interessa, envie um e-mail para contato@incipithub.com.br para saber mais detalhes dessa proposta.